segunda-feira, 16 de maio de 2011

Concurso: Contos 257

Dando continuidade ao baile, nosso próximo conto é de Júlia Fraguas, chama-se: Conto para ela.



Conto para ela

Vamos falar sobre quando estamos dormindo.
A intensidade dormente que te possui e não pensa, não controla a velocidade que teu corpo se contrai e se desespera por qualquer sombra de êxtase, o desejo incontrolável de prazer, de liberdade, começa a te tocar ainda dormindo, as pálpebras semi- abertas, fazem com que teus olhos chorem de angustia e vontade de logo cessar, o desejo incontrolável e enfim tu cavas, enfim tu encontras a imagem adequada, a fantasia útil, que te agrada, fica tão quente, é tão controlador, vai sendo rápido, nostálgico e doentio, uma sede desenfreada de prazer...

Prazer
Prazer prazer
Eu paro.
E respiro fundo.
Prazer prazer prazer
Prazer.

Acordei extasiada de um sonho bom.

Terminei de satisfazer meu corpo que lamenta por resistir a tão pouco, pensava que se a realidade do momento, um dia com outros, terminaria tão rápido, ou seria tão intenso. Como seria? Mais submisso? Sentiria cada força de gozo me sentindo ao longo das suas pernas?
Mas ai que eu te encontro, querido. Mas não seria tão íntimo, e nem seria eu somente.

É difícil entregar se a alguém quando se é como eu, quando se sente necessidade de si mesma, de rasgar se por dentro para atingir a respiração, aquela, de que todos falam, falam, pensam, pensam.

Mas dessa vez fora diferente, precisava então colocar toda aquela angustia que então expelia no meu corpo nesses momentos para um plano real. Um plano que mostrasse ingenuamente o que fazia a minha vida tão banal perante os outros, no turbilhão da existência, tão surreal.
Precisava eu contar. Sim, contar a aquelas pessoas que residiam no meu eu, toda aquela parafernália que dançava na minha cabeça, e infernizava a minha alma.

Eu havia então conhecido uma mulher, de uma beleza tão vulgar que doía nos meus mais profundos estímulos, o jeito que ela se movia fazia de mim uma mera desprovida de palavras, não conseguia expressar nada daquela dor assídua, que jamais me abandonava quando estava na sua presença.
Muitos falavam dela e da maneira que ela se comportava, e de uma maneira inexplicável isso me intrigava ainda mais, e na verdade, eu tinha era medo. Morria de medo daquela estranha que apareceu no meu meio. No exato meio que pacatamente eu me encontrava, e atiçou qualquer paranóia que eu tanto censurei alheios, acabei me tornando desconfiada e doente, sem nunca cessar.

Conhecemo-nos por um acaso adorável e quem sabe, uma intervenção divina, não, de divina ela não tinha nada, aquela mulher sim era a dona do inferno, a rainha das trevas, a imperatriz de todos os meus desalentos, como sofri nas garras do acaso, e ela, minha musa. O acaso então foi que uma amiga me falou dela, e me contou da personalidade excêntrica de Elis. Sim, esse é o nome. Elis, Elis, Elis. Percebe como soa bem? É uma beleza, uma flor maldita brotando no meu jardim amarelo. Antes fosse, até porque nunca fui muito amarela, se quer saber, sempre arranjei bons motivos pra viver em constante dor, acredito e tenho como provar lhes que apenas criaturas desprovidas de... Bom, a questão é que todos os acéfalos da sociedade são a fração feliz, aquela massa bem casada, satisfeita, conformada, que se agrada com o comum. Pensem mal, pensem levianamente, mas sejamos francos, a unanimidade é sim burra e contagia os filhotes do mundo.

Mas Elis não era assim, eu não era assim. Talvez outros adereços pudessem nos cogitar, mas burras levianas, burras, jamais. Nota como eu me ligava a ela de uma maneira invejosa? Sim! Uma parte de mim sempre soube que eu tinha era inveja da capacidade de desprendimentos emocionais que ela tinha, não obstante, aquela beleza perversamente cândida.

Embora eu também fosse bonita, até mais que ela, não possuía tamanha desenvoltura com a mesma, sabia usar dos meus atributos, porém, não de um charme nascente que fora crescendo com os anos.

Elis era alta e era cheia de casos, era aquele tipo convidativo, que chama a todos para perto de si, e quando os encontra se esquece das coisas, naquela época era o que eu mui leigamente achava, com o passar do tempo percebi que ela se lembrava de tudo que havia feito, dito, e principalmente tudo o que eu havia falado a ela, inclusive mentiras para impressionar. Embora, como antes mencionei no começo eu não conseguia falar muito, por causa daquele problema de identidade. Mas isso acabou passando, a partir do momento que minha meretriz casta se apaixonou por mim.

Na primeira vez que saímos sozinhas, eu não consegui dizer sequer qualquer coisa, nada, nada, é incrível como alguém tão decidida e com uma autonomia de opiniões pode se submeter a tamanho silêncio na presença de alguém, mas querendo ou não, foi assim. Eu tentava me sair convincente e falar coisas adequadas que soassem desprendidas o suficiente, e que me colocasse longe de qualquer vestígio que me fizesse parecer apaixonada. Aí, ela ainda não havia se encantado com o projeto de uma relação, só eu com meu problema de querer possuir mais e mais pessoas, como já era de praxe.

Acabamos depois de um passeio, indo até a casa dela, morava sozinha e isso era bom, estarmos sozinhas, na mesma medida que me fazia tremer, mesmo ela dizendo que isso não teria problema algum, como se algo no mundo, tivesse problemas pra ela.

Não sei de onde tirei força e coragem para beijá-la. Enfim. E fiquei amplamente feliz ao notar que minha capacidade sexo-intencional não tinha sido afetada pelo porre que ela fazia comigo, juro, era um inferno.

Agarrei-a da maneira mais voraz possível, puxei Elis pra perto do meu corpo e senti toda aquela altura e arte por cima de mim, eu estava alucinada, o beijo dela era como uma serenidade opaca perto do fogo que queima a razão. Ela se animou e me recebeu pra perto, passava suas mãos pelas minhas pernas e tinha um interesse sutilmente pesado nos meus seios. Novamente me senti alegre por saber que dali ia acontecer algo que me fizesse sair finalizada, algo bastante masculino, eu era assim. Sempre fui.

Abria o botão da minha calça com uma velocidade que, diga-se de passagem, nenhum homem havia aplicado tamanha habilidade em tal feito, como fizera ela também com minha blusa, que pra sua surpresa, era só ela, a blusa, e embaixo a brancura da minha saudade.

Mas de nada adiantava, já que ela não se aprofundou além das coxas. Exato, é aí a fonte do meu desespero. Aquela criatura brincava com a mais pura vontade do meu ser, eu vivia pelo meu prazer, eu vivia pela minha intensidade de busca e vontade, e a vontade que ela, aquela ninfa desgraçada me provocara, era maior do que qualquer solenidade mórbida.

Ela resolveu finalizar qualquer tipo de fluxo sanguíneo que rastejava pelas minhas veias, e foi assim, que se afastou de mim.

Não.
Não, não, na...
Não mesmo.
No meu mundo isso não existe.

Não se começa a pintar um quadro, sem querer terminá-lo.

Mas e se ela quisesse? E aquilo fizesse parte de um plano para acabar com minha estrutura e bater o martelo, sentenciar meu desejo profundo e amor! Como ela adorava falar de amor, amor e respeito, respeito pelos humanos, pelas pessoas, pelos anjos. Respeito! Anjos! Isso na verdade era um culto satânico disfarçado, um culto detalhadamente planejado pra acabar comigo.

O que eu poderia responder a aquela criatura adorável que há segundos me deliciava com beijos lisérgicos e agora rompera meu estado de frenesi?

Olha que boba e coerente eu fui. Desapeguei-me do seu corpo, levantei, me vesti, dei um sorriso convincente e disse que precisava ir. Então fui embora, e dei graças a deus que ela não pedira pra eu ficar, porque não podia permanecer nem mais um segundo sequer no mesmo ambiente que aquela víbora.

No caminho pra casa, demorei dois transportes públicos para atinar. Quando acordei, percebi que estava louca e apaixonada por ela, da maneira mais grata da palavra.

Como era doce Elis!

Vivia em conflito comigo, não me decidia se sentia dela inveja, desprezo ou paixão irreparável, chegando a minha casa, logo percebi, que era uma mescla dos três. E ainda assim irreparável, já que até no mais atual instante, ainda sinto por ela a mais devastadora atração.
Agora conto pra ela os motivos de nossa repentina separação.
Mas meus queridos, não se enganem, Elis não tinha nada de especial. Não era nada além de uma mulher como tantas outras mulheres, e que tinha os caprichos e atitudes como qualquer outro animal de sua espécie. E foi assim que meu romance com aquela moça acabou, não deixando rugas e nem futuros momentos nostálgicos que pudessem vir a me incomodar. Mas isso que lhes relato, era o que eu sentia naquele momento, naqueles dias que em outros dias voltaram, e que acontecia até o fim dos dias, que em outros dias acabaram.

sábado, 14 de maio de 2011

Concurso: Contos 257

Para todos os marinheiros de primeira viagem, o motivo da criação deste blog está aí do lado à direita, bem resumidinho e prático.
Antes de iniciarmos, gostaria de agradecer um grande amigo que nos presenteou com o banner bonitão do nosso blog. Obrigado mesmo, Fabrício! Quem quiser conferir mais do trabalho do F.Gwww.flickr.com/photos/fabriciografics/ .

Para aqueles que não sabem e encontram-se lendo este post, está em andamento o primeiro concurso  de contos realizado na turma 257 da cadeira: Escrita Criativa. Cada um dos grupos já organizados em aula escolherá um representante e seu devido trabalho para concorrer ao prêmio oferecido pelo professor Charles Kiefer: 15 livros. O prêmio não necessariamente será atribuído àquele que teve seu material escolhido, mas sim, poderá o destino do mesmo ser decidido em grupo da melhor maneira que concluirem.
O primeiro conto é de João Faria, chama-se: A Necromante. No correr dos demais posts, serão aqui expostos os trabalhos concorrentes.
                                                                                                                                                           
                                                                                                                                                       

A Necromante

Lembro-me como se ontem fosse, daqueles belos e sombrios dias, que passei ao lado dela, que para mim foi tudo e nada foi em tão pouco tempo, mas que onde quer que esteja agora, para sempre estará em minha lembrança como se viva estivesse em meu coração. Devo a ela os mais intensos momentos que já vivi - no tempo em que segurava sua mão e bebia do vinho de sua paixão -. Ah se eu pudesse vê-la uma vez mais, seria como ter meu primeiro encontro novamente, quão grande é o espaço que ela deixou em meu coração nesses últimos anos. Estou decidido, falarei com ela esta noite, nesta que é uma belíssima noite banhada pela maior das luas, brilhante como se da noite fosse o sol e pelas estrelas que são como as lágrimas de dor e alegria das mais nobres figuras que já pisaram nesta terra. Prepararei tudo, acenderei suas velas favoritas, arrumarei a mesa com sua toalha favorita, com seu vinho favorito e quem sabe virá ela brindar comigo uma vez mais, enquanto isso aguarde comigo caro leitor, sinta-se à vontade, só peço-lhe apenas que não toque nas taças...
           
            Tão bela foi aquela tarde de inverno quando cheguei de mudança com meus pais em nossa nova casa, uma charmosa residência em uma tranquila vizinhança. As outras casas se pareciam com a nossa, dois andares, pintadas de cores claras e alegres, janelas brancas e pequenos jardins. Lembro de ter me sentido tão feliz quando cheguei, era jovem e queria ser poeta; aquelas casas todas juntas, onde a rua tornava-se circular ao chegar ao fim, como o lago que se forma na queda de uma cachoeira, me inspiravam tanto. As pessoas pareciam tão felizes em suas pacatas vidas naquele bairro familiar, quase dava para sentir o calor humano emanando de cada uma das moradias.
            Tudo era tão calmo na Rua Fênix que eu por vezes sentia-me flutuar em minha cama pelas manhãs ao som do canto dos passarinhos, e foi numa dessas manhãs que recebemos a visita de nossos adoráveis vizinhos, os Ward. Eles, como bons vizinhos que eram trouxeram bolo e tomaram chá com meus pais, perguntaram sobre o que eu pretendia fazer agora que acabara a escola, então lhes contei sobre como gostaria de ser escritor e fazer a minha poesia, e também sobre minha paixão pelas letras. Manhã muito agradável foi aquela que passamos com o casal Ward, e antes que se fossem de volta à própria casa, contaram-me que tinham uma filha da minha idade e convidaram-me para visitá-los no próximo final de semana.
            O final de semana finalmente chegou, eu estava animado, pois ainda não tivera o prazer de uma companhia que tivesse vindo a este mundo em época não tão distante da minha. Cheguei à casa dos Ward no começo da tarde daquele sábado, era um dia frio, mas o calor do sol e das pessoas tornava tudo mais agradável naquele lugar tão angelical. Após os devidos cumprimentos aos donos da casa, subi lentamente as escadas em direção ao quarto dela, estava realmente ansioso para conhecê-la, - pude sentir minhas mãos formigarem durante a subida o quão nervoso eu estava – logo a frente da porta, respirei profundamente, tentei improvisar meu melhor sorriso, e finalmente bati na porta, mal sabia eu que esse momento mudaria completamente a história da minha vida. A porta se abriu revelando uma menina realmente diferente dos pais, enquanto o senhor e a senhora Ward tinham cabelos loiros e olhos azuis, pele pouco bronzeada e um sorriso reconfortante e convidativo, essa que se encontrava diante de mim era muito pálida, tinha olhos negros como noites sem lua, cabelos tão igualmente negros que dependendo da luz eram quase azulados, não sorria, mas tinha um olhar diabólico, e mesmo assim não havia como negar que esta talvez fosse a possuidora da maior e mais intocável beleza que já tive a sorte de ver. Pouco receptiva ela foi, perguntou quem era eu e a que vinha, contei que era o novo vizinho e que estava feliz por conhecê-la. – caro leitor, não penses que me esqueci de lhe contar sobre a parte em que ela me convidava a entrar em seus aposentos, ela realmente não o fez naquele dia, e tudo que falamos foi ali onde estávamos, à beira da escada, em frente a porta – Talvez ela estivesse de mal-humor ou algo do gênero, disse que ia recolher-se, e eu tímido como sempre fui, não quis incomodar. Ela ia fechando a porta:

- Antes que se vá diga-me ao menos como se chama, disse eu
- Sou Gabriela Ward, disse ela e fechou-se na escuridão de seu quarto, e não, ela não perguntou meu nome.

            Passaram-se mais algumas semanas, aquele lugarejo que tanto me encantara na chegada, tornava-se cada dia mais tedioso para mim, afinal não tinha amigos, passava meus dias tentando escrever algo, mas minhas poesias já não brotavam em minha mente como se eu as tivesse psicografado; tudo que produzi naqueles dias fora puramente parnasiano, não houve um momento de inspiração. Muitas vezes me pegava em meus devaneios a pensar em Gabriela, tão bela com seu olhar quase místico, mas não tive contato com ela desde aquele dia, tão pouco consegui usar sua imagem como musa para minha arte, não sabia absolutamente nada além de seu nome e alguns detalhes que decorei de sua fisionomia. A janela do quarto dela podia ser vista do meu, todo fim de tarde eu me sentava em frente à janela na esperança de vê-la, no entanto, seu quarto não via a luz do sol havia tempos.
            Certa noite estava eu deitado em minha cama, suado e com frio, por mais que tentasse não voltaria a dormir enquanto estivesse agitado como estava, afinal, acabara eu de despertar de um tenebroso pesadelo. Foi então que decidi respirar um pouco, fui até a janela, nunca antes eu havia visto meu novo lar à noite, mas quando abri a veneziana e olhei para fora, fiquei totalmente estupefato, não podia acreditar, mas era verdade, eis que finalmente vi a janela de Gabriela aberta, na calada da noite, pude vê-la em seu quarto, rodeada por velas que pouco iluminavam a escuridão, estava ela acordada, ajoelhada no chão ela fazia alguns movimentos peculiares, de início pensei que estava ela orando, mas logo vi que tratava-se algo diferente, então após alguns segundos, seus olhos finalmente encontraram os meus, os dela brilhavam intensamente refletindo a luz da lua como olhos de gato, ela assustou-se e repentinamente cessou o bizarro ritual, apressou-se em soprar as velas, e na escuridão total, fechou sua janela e não deu mais sinal.
            A cena que eu havia presenciado ficou em minha cabeça marcada por dias, o que estaria ela fazendo? A sinistra imagem do ocorrido rondava meus sonhos. Após aquilo desisti de esperar que ela aparecesse para mim nos fins de tarde, comecei a esperá-la nas madrugadas, cauteloso observava no canto entreaberto da janela, mas não tive sucesso.
            Em uma manhã comum, ao levantar-me, fui à caixa do correio recolher a correspondência como de costume, e eu que nunca recebera uma carta na vida, deparei-me com um envelope com minhas iniciais atrás: A.L.; ansioso, subi as escadas correndo e tranquei-me em meu quarto, não pude acreditar no que li, a carta dizia em bela, porém incomum caligrafia o seguinte:
              Prezado Ângelo, tenho pensado muito sobre o momento em que nos conhecemos, em como nosso tempo  fora limitado. Gostaria muito de tornar a vê-lo em breve, assim poderemos nos conhecer melhor e conversar um pouco sobre aquilo que viste naquela madrugada. Se quiser ver-me, encontre-me em frente à minha casa ao pôr do sol da próxima sexta-feira.

                                                                                              Atenciosamente, Gabriela Ward ”

Apesar de realmente não saber como Gabriela havia descoberto meu nome, e nem saber exatamente se eu queria mesmo descobrir o que fazia ela naquela noite sombria, não perderia a chance de rever tal beleza que me atraia tanto. Escovei longamente meus cabelos, escolhi minha melhor camisa, aparei o pouco de barba que tinha e finalmente estava pronto. Ao pôr do sol Gabriela me esperava vestindo um longo vestido preto, usava anéis de ouro com pedras brilhantes e um peculiar medalhão com a figura de um pentagrama. Após os devidos cumprimentos, seguimos a caminhar sob o luar, a lua banhava a pele de Gabriela, ela nunca estivera tão bela aos meus olhos, era como se a noite com suas luzes sombrias completassem a figura épica dela. Tivemos um passeio realmente agradável, ela me contou que fazia muito gosto da leitura, gostava de pintar e que um dia me mostraria algumas de suas telas, falou-me sobre muitas coisas, mas não tocou no assunto de seu estranho ritual. Ao chegarmos a sua casa, Gabriela convidou-me para entrar, eu a segui na escuridão, – já era tarde – à porta de seu quarto no final da escadaria ela contou-me que seus pais haviam saído e que não voltariam tão cedo. Juntos passamos uma gloriosa noite, onde entregamos um ao outro nossa inocência, suas carícias despertavam um “outro eu” que me era tão distinto e seus beijos levavam-me a um passeio no infinito passando por todas as estrelas mais belas da galáxia. Mágica. Eu realmente não consigo descrever com exatidão a sensação que trás ao homem, dormir tendo em seus braços a mulher alvo de sua paixão, e quando essa paixão trata-se de Gabriela Ward, é ainda mais incrível, eu não queria dormir, poderia passar a eternidade ouvindo sua respiração, contemplando sua face angelical em seu sono profundo, inalando o aroma de seus cabelos e sentindo o calor de seu corpo junto ao meu.
Passamos dois meses em nosso secreto namoro, eu sentia-me em chamas, se alguém no passado dissesse-me que um dia seria tão feliz eu certamente que não acreditaria, mas era verdade, eu estava vivendo um sonho. Numa noite, após bebermos do vinho de nosso amor, estávamos abraçados esperando o sono Gabriela fez-me uma pergunta que me intrigou:

- Ângelo, tu acreditas que podemos falar com o outro mundo?
- E que outro mundo seria esse?
- Tu sabes; o outro mundo, bem, não exatamente o outro mundo, mas com as pessoas do outro mundo.
- Agora me deixaste realmente confuso, Gabriela.
- Quero saber se tu acreditas que podemos falar com aqueles que deixaram este mundo, se podemos nos comunicar com os mortos.
- Nunca pensei sobre isso, disse eu dando-lhe um beijo na testa de boa noite.

Adormeci aquela noite com uma sensação estranha, Gabriela não precisara contar-me, agora eu finalmente sabia o que ela fazia – ou tentava fazer – na madrugada em que eu a vi pela janela. Necromancia.
Durante os dias que se seguiram, eu notara coisas que jamais antes havia percebido, no quarto de Gabriela havia um pentagrama, como o de seu medalhão, feito no assoalho com algo que produziu um risco fino na madeira, provavelmente uma navalha; ela possuía alguns livros que me aparentavam serem muito antigos por suas páginas amareladas e suas capas gastas como livros de magia negra; possuía também um pequeno punhal que repousava sobre seu criado-mudo, que embainhado parecia um crucifixo; além de um grande baú à beira de sua cama, que estava trancado por um cadeado, me perguntava o que poderia estar guardado. Procurei informar-me mais sobre o assunto, li um pouco sobre necromancia, tipos de rituais e coisas do gênero, mas com quem Gabriela estaria querendo falar?
Foi numa quarta-feira em que estava com ela, quando já me suspeitava de que ela teria mencionado, em sua carta, conversar comigo sobre o ritual teria sido apenas um argumento para me seduzir, que Gabriela me falou sobre suas pretensões.

- Farei de novo nesta sexta à noite.
- Está falando da necromancia? Perguntei tentando não transparecer nervosismo.
- Sim, esta sexta-feira teremos as condições ideais, venho me preparando para isso já tem algum tempo.
- Mas com quem desejas tanto falar, a ponto de romper a barreira entre a vida e a morte?
- Um amigo que faleceu, era meu melhor amigo, mas morreu por conta de uma doença que tinha, inclusive, morava na casa onde moras agora.
- Eu juro que não entendo isso, mas tu achas que vai dar certo?
- Sei que vai, desta vez tu não vais me atrapalhar, inclusive, desta vez me ajudarás! Disse-me Gabriela com um olhar ardente e um sorriso não menos que macabro.

Uma forte tempestade tomava o céu naquela sexta-feira, a escuridão tomou conta da vizinhança durante todo o dia, e à noite não cessou. Cheguei à casa dos Ward por volta de umas nove horas da noite, o os pais de Gabriela sorriam para mim enquanto eu subia as escadas, a essa altura tenho certeza de que já sabiam de nosso namoro, quando fui abrir a porta do quarto vi que estava trancada. Logo se abriu revelando uma Gabriela diferente do que de costume, seus cabelos não estavam tão arrumados, sua pele brilhava com o suor, ela parecia realmente alterada, e isso só mostrava que ela ainda não desistira da maldita ideia. Adentrei seu quarto tateando os móveis, não havia uma única luz acesa e ela fechou a porta em seguida.

            - O que fazemos agora? Perguntei.
            - Aguardamos, ainda não é chegada a hora.
             
            Segurei sua mão, beijei seus lábios, mas Gabriela estava fria, não sentia a ardência de seu toque como das outras vezes, parecia que não mais me desejava e aquilo não me agradava. A situação não melhorou nos próximos minutos, sem ter contato comigo, e respirando tão baixo que não podia ser ouvida, era como se ela não estivesse ali, e eu estivesse sozinho em meio à escuridão total daquele aposento, mas o pior estava por vir. A sinistra paz daquele momento foi quebrada com o riscar de um fósforo.

- Vamos começar, disse Gabriela.

            Ela foi acendendo velas que estavam dispostas no chão, depois de todas acesas percebia-se que formavam um pentagrama, no centro havia uma toalha preta, com duas taças de cristal sobre elas. Sob a luz das velas Gabriela tinha um aspecto realmente tenebroso, esboçava um leve sorriso que lembrava a loucura, impressão que era realçada por seus olhos hoje arregalados. Na parede o relógio agora marcava onze horas, e nesse momento Gabriela levantou-se e foi até sua escrivaninha, abriu um grosso e antigo livro, leu rapidamente qualquer coisa – não tive coragem de ler o que estava escrito – virou-se e abriu a porta.

            - Eu voltarei logo, disse ela ao sair e fechar a porta.

Um barulho característico de chave mostrou-me que eu agora estava trancado no quarto. Passaram-se dez minutos, a tempestade tornou-se mais intensa, com a chuva e os trovões eu mal podia ouvir os meus pensamentos. Mais dez minutos, tive a impressão de ouvir ruídos vindos do andar de baixo, mas poderia ter sido minha imaginação afetada pelo clima malévolo da noite, para ajudar a tempestade não folgava, e, além disso, não poderia eu fazer coisa alguma, estava trancado no quarto. Ainda mais dez minutos, e finalmente Gabriela voltara, estava ainda mais suada, trazia em suas mãos uma jarra, serviu uma das taças com um líquido vermelho escuro.

- Por acaso isso é vinho perguntei?
- Sim, é vinho, disse ela.
- Eu estava mesmo com sede, disse eu me abaixando para pegar uma das taças no chão.
- Não toque nas taças! Não é para ti.

Agora eu estava começando a ficar realmente assustado, Gabriela pegou seu medalhão e o abriu, dele tirou uma chave que usou para passar pelo cadeado que trancava o grande baú, dele tirou uma capa preta com um grande capuz que logo vestiu, um livro como o que estava na escrivaninha só que bem menor, e uma cinta de couro.

- Sente-se ali, me disse ela apontando uma cadeira.

Sentei, e ao sentar percebi que estava cansado, não havia percebido que estava praticamente parado em pé nas últimas horas. Ela então para matar minha sede, deu-me um copo de água, que quando paro para pensar já estava lá desde que cheguei. Bebi todo num gole, estava realmente cansado, e minha boca pareceu ficar até mais seca do que antes, eu agora lutava contra o sono...
Despertei com a sensação de ter tido um pesadelo, mas não era, era real, eu realmente estava no quarto de Gabriela, o relógio já marcava mais de meia-noite, ela estava ajoelhada no chão, como na noite em que a vi. Senti um ar gelado vindo da rua, a janela agora estava aberta. Ao tentar me mover, senti a sinta de couro que prendia minhas mãos para trás da cadeira.

- O que é isso Gabriela, isso já está passando dos limites, liberte-me!
- Calado! Não ouses interromper-me nesta hora!
- Solte-me, tu dissestes que eu iria ajudá-la.
- Fique quieto, já estás me ajudando.
- Como?
- Percebi que das outras vezes não tive sucesso ao tentar contato com meu antigo amigo Augusto, pois não havia lhe dado meios de falar comigo, mas esta noite há, e tu Ângelo, serás a oferenda!

Ela passou então a me ignorar, pegou o livro menor e começou a recitar frases em latim enquanto ajoelhada fazia os movimentos do ritual. Não sei se era o vento ou se era algo realmente sobrenatural, mas a chama das velas havia aumentado consideravelmente. Gabriela em sua atual imagem doentia segurava uma das taças, sua face me causava pavor quando ela pôs-se em pé. De repente num rompante a porta do quarto é arrombada, e ali cai o senhor Ward, com suas roupas banhadas em sangue.

- Maldita! Gritou ele antes de morrer diante de nossos olhos.

Percebi que o punhal já não estava sobre o criado-mudo, Gabriela havia cometido este crime, era provável que tivesse matado sua mãe também, com um breve raciocínio cheguei à conclusão que o líquido na jarra e na taça era o sangue de seus pais. Enquanto Gabriela continuava a murmurar suas bruxarias, eu conseguira me livrar da cinta, mas mantive minha posição. Ela então parou de falar, com a taça vazia não mão se aproximou de mim, tirou o punhal sangrento das vestes e disse:

- Acalme-se, preciso de ti vivo; apenas pegarei um pouco de teu sangue.
- Achei que tu me amavas!
- Eu amei, e por isso foi fácil trazer-te até aqui, ao fim desta noite terei meu amado Augusto de volta, mas não leve a mal; vocês dois serão um só. Continuarei a me entregar a este teu corpo, mas ao mesmo tempo a meu verdadeiro amor que me foi tirado precocemente. Agora não te movas.

Saltei sobre Gabriela, ela estava realmente forte, mas em pouco tempo de briga, tomei-lhe o punhal das mãos. Enterrar-lhe aquela lâmina foi como se o fizesse em minha própria carne, meu coração ardia, ela chorava e se debatia então eu a prendi em seu baú, tranquei com o cadeado, o baú tornou-se sua sepultura. Saí correndo pela noite, em meio à tempestade, mas nem toda chuva do mundo poderia lavar minha alma, ajoelhei-me e gritei por Deus...

Dez anos transcorreram-se desde então caro leitor, e nunca mais fui o mesmo, após aquele dia mudei-me da cidade, tive outros amores, escrevi minha poesia, vivi minha vida, mas nunca pude esquecer Gabriela Ward. Nunca ouvi uma notícia sobre o caso, nem sei como se passa atualmente a vizinhança da Rua Fênix. Sinto tantas saudades de minha amada, mas hoje hei de falar com ela, sinto-me preparado, não foi fácil conseguir um exemplar deste livro que vês sobre a mesa, e custei a dominar a pronúncia correta em latim. Não ouses ir embora caro leitor, é chegada a hora, não te movas, fiques aí sentado onde está, pois tu me ajudarás...